Em entrevista à Folha, Paulinho explica papel do Solidariedade no cenário político

O deputado federal Paulo Pereira da Silva, eleito por São Paulo, deixou ontem o PDT para se filiar ao novo partido que acaba de criar, o Solidariedade, e do qual será o presidente nacional. Seu objetivo é fazer oposição ao governo de Dilma Rousseff, a quem chama de “inimiga”.

Em entrevista ao programa Poder e Política, da Folha e do UOL, Paulinho da Força Sindical (como é conhecido por presidir essa central de trabalhadores) afirmou que a tendência do Solidariedade é oferecer apoio à candidatura presidencial do senador Aécio Neves (PSDB-MG). E Dilma? “Não fez nada. Não cumpriu uma [promessa]. Nenhuma. E virou minha inimiga dois dias depois que foi eleita”, declarou.

Durante a entrevista, o político de 57 anos fez inúmeras críticas à presidente e ao governo federal petista. “Ela [Dilma] vive hoje da fama que o Lula tinha nessa área [sindical]. Você pode ver.

O discurso dela é: ‘Porque o Lula fez, o Lula fez’. Pergunte o que ela fez? Ela não fez coisa nenhuma. Para os trabalhadores, não”.

Paulinho cita compromissos que a petista fez durante a campanha eleitoral de 2010 com várias centrais sindicais. Por exemplo, o fim da fórmula conhecida como fator previdenciário para as aposentadorias da iniciativa privada. “Ela se comprometeu junto com o ex-presidente Lula. E não cumpriu coisa nenhuma. Eu não tenho como apoiar alguém que concorda fazer as coisas para os trabalhadores e no outro dia muda de lado. Ela não é minha mãe”.

Antes de romper com o governo, Paulinho relata ter conversado com o padrinho político de Dilma. “Ela abandonou as causas trabalhistas. Eu falei isso para o Lula: ‘Lula, não me peça para fazer nada por essa mulher que eu não faço'”.

Com a expectativa da adesão de 30 deputados ao Solidariedade, Paulinho acredita que terá cerca de dois minutos de tempo de TV e rádio na propaganda política em 2014. Esse é o principal ativo que pretende colocar à disposição da oposição.

“No que depender de mim o meu partido vai para a oposição”, diz ele. Sua preferência é por Aécio Neves –“é muito meu amigo”–, mas o deputado fala também numa outra configuração:

“Vou trabalhar com ideia de fazer um acordo com o Aécio, Eduardo Campos [PSB] e Marina Silva: ter uma grande composição no segundo turno das eleições. Acho que esses três candidatos deveriam ter as condições iguais de disputar as eleições. E, aí, com o acordo de quem for melhor, no segundo turno, ter o apoio dos outros”.

Uma possibilidade de Paulinho mudar de opinião seria a volta de Luiz Inácio Lula da Silva como candidato. Mas essa saída seria remota. “Se ele falar hoje que é candidato… ele acaba com o governo da Dilma. Se ele não fala e deixa para mais para frente, as pessoas vão assumindo outros compromissos. Então, ele sabe que está inviabilizado”.

Outro reparo que o deputado faz sobre o funcionamento da administração petista inclui o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, comandado pelo petista Fernando Pimentel. “O ministro está mais preocupado em ser governador de Minas Gerais…Já fui lá 30 vezes e esse cara não atende ninguém. Pergunta ao setor industrial o que acontece? Diz que toda hora está falando com a [presidente] Dilma [Rousseff]. Pô, para de mentir. Não é possível que você fala com a Dilma toda hora”, diz Paulinho.

Sobre as acusações de fraudes na coleta de assinaturas para criar o Solidariedade, Paulinho repetiu o que vem dizendo: “Foi tudo armado”.

A seguir, trechos da entrevista:

Folha/UOL – Qual é o grau de envolvimento do sr. na criação do partido Solidariedade?
Paulo Pereira da Silva – Fizemos uma reunião, em novembro do ano passado, na casa aqui de Brasília do deputado Augusto Coutinho [DEM-PE], com cerca de 10, 12 deputados. Junto também com um grupo de sindicalistas, com [o advogado] Marcílio Duarte, que foi o nosso presidente até este momento. Decidimos criar o partido.
A partir de novembro, nós nos envolvemos nesse trabalho difícil de coleta de assinaturas e de registros do partido nos Estados. Teve o envolvimento de parlamentares, sindicalistas, do movimento sindical e até do MST.
Tivemos a preocupação de não falar demais. Se você fala demais você junta os amigos, mas junta também os adversários.

Qual o peso do apoio no meio sindical para criar o partido?
Tive o apoio de muita militância do movimento sindical, de líderes de fábricas, trabalhadores das fábricas, dos movimentos sociais, das comunidades de base. Dos trabalhadores sem terra, principalmente do Pontal do Paranapanema (SP), muita ajuda do pessoal do Zé Rainha, do João Paulo, que é um dos líderes do MST.

Por que o nome Solidariedade foi escolhido?
Nós tínhamos que criar um partido que tivesse um “T”, por causa da minha origem [trabalhismo] e da origem das pessoas que estavam trabalhando, ou um “S”-de social, socialista.
Se você olhar na lista de partidos registrados no TSE, os ‘T’ e ‘S’ estão ocupados. Aí um deputado disse: ‘Vamos por Solidariedade’.

Quem foi esse deputado?
Foi o Roberto Santiago (PSD-SP). Ele fez a sugestão de por Solidariedade. Ele não virá conosco, mas a sugestão de Solidariedade foi dele.

Tem alguma inspiração no Solidariedade comandado pelo [ex-presidente polonês] Lech Walesa?
Não, foi por falta de opção. Acabou ficando bonito.

O Solidariedade terá uma sigla?
A sigla que no estatuto é SDD. Parece um pouco esse negócio de mata-mosquito. É meio estranho.
SOL ia confundir com PSOL. PS já tem alguém que tinha assumido PS.
Se fosse SD, era só colocar o P para ficar PSD. Então a gente colocou SDD. Mas eu acho que devíamos trabalhar e mudar essa sigla. Solidariedade fica grande, mas também não dá pra gente ter uma sigla que não condiz um pouco com a nossa realidade.

Quando o sr. assume a presidência do Solidariedade?
Essa coisa de assumir a presidência deve ser nos próximos dias, mas nós estamos mais preocupados com quem será candidato em 2014.

Mas já está definido que o sr. assume a presidência do Solidariedade?
O nosso presidente é o Marcílio Duarte, a quem eu quero agradecer muito pelo trabalho que fez até agora. Marcílio é uma pessoa muito correta e muito competente. O acordo que nós tínhamos com ele é que eu assumiria a presidência. Mas já fizemos uma discussão de que ele será o secretário-geral nacional do partido e eu assumirei a presidência.

E isso deve acontecer nas próximas semanas?
Depois do prazo de filiação que termina no dia 5 [de outubro].

Por que durante o processo de criação do Solidariedade o sr. não aparecia formalmente como o principal líder desse novo grupo?
Porque estou num partido. Fui eleito pelo PDT. Se eu assumisse a criação de um partido desde o início eu teria grandes dificuldades dentro do meu partido.

Mas todo mundo já sabia…
Não, não sabia. Foi sabendo. Porque aí todo mundo começou a falar. Eu não podia assumir, não era esse o objetivo. Nós tínhamos colocado o Marcílio exatamente porque ele tinha uma experiência na criação. Eu tenho brincado que ele é o recordista mundial de criador de partido. Ele já criou sete, com esse.

Há uma crítica em relação à criação de partidos no Brasil. Para alguns, existem mais partidos do que seria necessário. Para outros, não. Qual a sua opinião?
Olha, se você pegar os Estados Unidos, me parece que tem mais de 80 partidos…

Qual a diferença entre lá e aqui, além desse número?
Se nós formos comparar com o número da população nós estamos parecidos.

A diferença é que aqui no Brasil os partidos, ao serem criados, já começam a receber dinheiro público. Nos Estados Unidos, não…
Não sei se é isso. Nós não temos esse objetivo de receber dinheiro público. Até porque…

Mas vai receber…
Vai receber porque faz parte do jogo.

Quais serão as duas ou três principais causas que o Solidariedade defenderá?
Uma das principais é acabar com o fator previdenciário. Essa questão é uma questão de honra para nós.

Explique o que é o fator previdenciário.
O fator previdenciário é uma maldita conta que inventaram que pega a aposentadoria da pessoa e derruba 40% quando você vai se aposentar, no mínimo. Se for homem. Se for mulher, vai perder mais.

Estamos tratando do setor privado.
Setor privado.

O governa rebate dizendo que sem o fator previdenciário o déficit da Previdência aumenta. Como o senhor rebate essa crítica?
É conversa fiada do governo. Porque nós estamos oferecendo em troca disso um novo sistema. Não é nem acabar com o fator previdenciário, é manter o fator e criar uma alternativa.

Qual alternativa?
Essa alternativa seria aquela fórmula 85/95. Combina o tempo de trabalho com a idade. Você se aposenta melhor.
Vou dar um exemplo: uma pessoa que começa a trabalhar aos 16 anos, que trabalha em uma única empresa, chegará aos 51 anos com 35 anos de contribuição. Se você somar 35 anos de trabalho com 51 de idade ele vai para 86. Faltariam 9.
Se essa pessoa quiser se aposentar, nós não podemos tirar os direitos de quem quiser se aposentar. Ele se aposenta, mas entra no fator. Se ele não quiser, o que nós estamos propondo é criar esse novo sistema. Aí, na nossa conta, faltariam 9, mas como cada ano de trabalho valem dois –porque é um ano de trabalho e um ano de idade–, faltariam quatro anos e meio. Aí você cria uma regra que vai subindo a aposentadoria da pessoa na medida que ela trabalha mais.
Portanto, o trabalhador vai ficar mais no emprego e vai contribuir mais com a Previdência –e a Previdência vai arrecadar até mais do que hoje.

Nesse seu exemplo, a pessoa começou a trabalhar aos 16 anos e, em tese, poderia se aposentar já aos 51 anos. É justo ter um sistema que permita a aposentadoria de pessoas com 51 anos?
Por isso que nós estamos propondo alternativa. Porque hoje, pode. Cai no fator previdenciário. Perde 40%, mas pode.
O que nós estamos propondo é incentivar o cara a trabalhar mais.

Com o fator esse incentivo não existe?
Não. Se ele ficar trabalhando, vai perder mais ainda, por causa da expectativa de vida. Cada vez que a expectativa de vida sobe, o fator diminui o salário. Quando as pessoas me perguntam, recomendo que se aposentem. Quanto mais você trabalhar, mais você vai perder. Nossa proposta é o contrário: estamos propondo um incentivo para a pessoa ficar trabalhando -e, portanto, arrecadar para Previdência e se aposentar melhor.

Cite outras duas causas que o Solidariedade vai defender.
Estão vindo muitos deputados ligados ao setor empresarial. Acho que temos que pegar essa causa da importação. Isso é um escândalo que vem acontecendo no Brasil. Setores industriais importantes sendo destruídos.

Fonte: site da Folha de S.Paulo